Projeto sobre criação de abelhas nativas sem ferrão pode beneficiar mais de dez mil meliponicultores gaúchos | Portal de Camaquã
Desenvolvido por iPoomWeb - www.ipoomweb.com.br
Meliponicultura é a criação das abelhas nativas sem ferrão, que produzem mel com qualidade destacada
22/04/2021Por Marcela Santos – Foto: Divulgação
Após muito
diálogo com meliponicultores, os deputados estaduais Zé Nunes (PT) e
Capitão Macedo (PSL) protocolaram na Assembleia Legislativa, o Projeto
de Lei nº 94/21, que dispõe sobre a criação, o comércio, o transporte e a
conservação de abelhas nativas sem ferrão (meliponíneos) e de seus
produtos no Rio Grande do Sul.
A meliponicultura é a
criação das abelhas nativas sem ferrão, que produzem mel com qualidade
destacada. No Brasil houve um crescimento significativo desta atividade
nos últimos anos.
“Somente no Rio Grande do Sul estima-se que
existam em torno de dez mil meliponicultores. O setor vem se organizando
com a formação associações representativas e com a realização de
frequentes encontros e seminários em todas as regiões do Estado, para o
desenvolvimento técnico dos meliponicultores e dos novos interessados na
atividade e na disseminação junto à sociedade para a estruturação e
organização do setor. Entretanto, apesar do crescimento, a
meliponicultura não teve o devido atenção seja na legislação regulatória
e nas políticas públicas de apoio”, explicou Zé Nunes, coordenador da
Frente Parlamentar da Apicultura e da Meliponicultura da AL.
Na
avaliação dos meliponicultores, no país, a atividade ainda é tratada
pelos órgãos reguladores e fiscalizadores sob a ótica da prática de
crime ambiental, desconsiderando a contribuição que presta para a
sustentabilidade ambiental, a partir da prestação do fundamental serviço
ecossistêmico da polinização, que as abelhas exercem. Os
meliponicultores desejam que a atividade seja também reconhecida
enquanto atividade produtiva, contemplando todos os pilares da produção
sustentável.
Segundo Capitão Macedo, é necessária a criação de um
ambiente legal de inclusão e orientação, reduzindo o foco punitivo, de
forma a promover a atividade com informações e segurança jurídica
daqueles que pretendem exercer essa atividade tão importante para a
conservação e preservação das abelhas nativas sem ferrão e de toda a
biodiversidade. “Essa proposta foi construída com participação dos
meliponicultores, especialmente, de lideranças ligadas à várias
associações e federações ligadas ao setor”, lembrou Capitão Macedo.
Paulistanos criam abelhas sem ferrão como animais de estimação
Gabriela Amorim
Jataí, mandaçaia, mirim… Esses são nomes de abelhas
nativas, cada vez mais familiares para um grupo de moradores da cidade.
Ainda que diversas espécies, todas sem ferrão, se adaptem a áreas
urbanas sem esforço do homem — instalam-se em postes e árvores ocas ou
em buracos de muros, por exemplo —, esses criadores cuidam dos insetos
em casa, como se fossem animais de estimação. Ao mesmo tempo que ajudam a
preservar as espécies, de papel fundamental na polinização de plantas,
colaboram para o equilíbrio do meio ambiente.
“As abelhas promovem uma mudança no comportamento das pessoas que
vivem nas metrópoles. Trazem uma consciência maior sobre nosso
ecossistema natural”, acredita o biólogo Cristiano Menezes, pesquisador da Embrapa Meio Ambiente e membro do comitê científico da Associação Brasileira de Estudos das Abelhas (A.B.E.L.H.A).
“O contato com a terra e com os insetos me faz voltar às origens. Eu me tornei um roceiro urbano”, brinca o apresentador Marcelo Tas,
paulista de Ituverava, que desde agosto cria jataís. “Para a melhor
alimentação delas, troquei as plantas e flores por opções nativas”, diz Tas, que usa o telhado verde de seu estúdio no Jardim Paulistano.
Marcelo Tas, que cultiva plantas e flores para os insetos: “roceiro urbano” Arquivo pessoal/Divulgação
Cuidar dessas espécies é simples. Para começar, obtém-se uma caixinha
com uma colônia com algum criador. Mas é preciso atenção a uma nova
legislação. Em fevereiro, a Secretaria de Infraestrutura e Meio Ambiente
(Sima) do estado passou a regular a criação no Sistema Integrado de Gestão de Fauna Silvestre (GeFau).
“É obrigatório o cadastramento até 19 de agosto. Pelo cenário de pandemia, estamos dispostos a prorrogar o prazo”, afirma Sérgio Marçon,
coordenador de Fiscalização e Biodiversidade. Para obter a autorização,
mesmo sem motivo comercial, é necessário passar o nome da espécie, o
comprovante de endereço com coordenadas da instalação do meliponário
(local onde fica a colmeia) e documentação pessoal. Desde a entrada do
sistema no ar, em 9 de março, até o dia 31 de março, há cinquenta
registros.
O chef Alex Atala, do D.O.M. e do Dalva e Dito, se
dedica a três colmeias no quintal de sua casa, no Sumaré. “As abelhas
ajudam na polinização das minhas orquídeas”, conta o cozinheiro, que
também reforça o papel educativo que os insetos tiveram para os filhos.
“Eles cresceram entendendo o funcionamento de uma colmeia, a diferença
dos méis e pólen. É lúdico.” Para expandir o teor pedagógico, ele pôs na
frente do Dalva e Dito uma colmeia de jataís. “As pessoas param para
ver.”
Ainda que muitas dessas espécies produzam méis saborosos (veja dois exemplos de receitas abaixo), mais fluidos e de toque ácido, em comparação com os das abelhas africanizadas, com ferrão e as mais usadas comercialmente, a criação não é necessariamente para obter o produto.
“Ainda não tenho um melgueiro (área da caixa onde ficam os favos) e não sei se quero ter”, afirma a cantora e compositora Isabel Lenza.
Desde o início da quarentena, ela mantém jataís e mandaçaias no jardim
de casa, na Vila Madalena. “Foi louco observar a aglomeração diária
delas, indo na mão contrária do que estava acontecendo na humanidade”,
observa.
A cantora Isabel Lenza e a caixa de criação ampliada (à dir.): início durante a pandemia Clayton Vieira/Veja SP
O pesquisador de sustentabilidade Celso Barbiéri
conseguiu uma façanha: mantém três colônias, de jataí, mandaçaia e
mirim, em seu apartamento de 55 metros quadrados, sem sacada, no
Ipiranga. “Os vizinhos não têm medo. Até apoiam”, garante. Elas ficam em
caixas colocadas ao lado de janelas basculantes, ligadas ao exterior
por canos de PVC, pelos quais os insetos podem transitar livremente.
Mas, mesmo sendo as abelhas animais independentes, o cuidado com a
alimentação delas não deve ser deixado de lado. Em estações do ano com
pouca floração, Barbiéri recomenda um reforço energético com xarope de água e açúcar.
Caixa de abelhas mandaçaia: criação de Isabel Lenza Clayton Vieira/Veja SP
Presidente da SOS Abelhas sem Ferrão, Gerson Luiz Pinheiro
recomenda que os donos estudem sobre as espécies. “As pessoas devem
entender os ciclos naturais delas, plantar cada vez mais e usar menos
venenos”, afirma.
Enquanto grande parte dos criadores trata as abelhas como bichinhos
de estimação, sem extrair o mel, há quem encontre nas colmeias uma
atividade econômica. Morador de Parelheiros, no extremo sul da capital, o
designer gráfico Carlos Barrichello é um dos sócios da Beeliving, marca de méis de onze espécies sem ferrão.
Pelo site beeliving.com.br, se adquirem produtos, por exemplo, de uruçu amarela e mandaguari, de seu sítio com uma área de mata atlântica preservada. Barrichello
vende também méis vindos de outros biomas. “Com o processo desde a
colheita dos produtos até a colocação no frasco com rótulo, é impossível
não se atentar à preservação das abelhas”, diz. “Esse cuidado é
essencial.”
No prato e no copo
Pão de mel do Evvai, à direita: drinque suburbano, do Jiquitaia, à esquerda Eduardo Maida/Tadeu Brunelli/Divulgação
O mel produzido por abelhas nativas criadas por especialistas pode
ter fins gastronômicos. O pão de mel do Evvai, feito com os produtos da
Mbee, de jataí, vem com distintas texturas do ingrediente principal:
creme, gel e favo, além de chocolate. Essa é uma indicação do
editor-sênior Arnaldo Lorençato. O repórter de bares Saulo Yassuda
recomenda o drinque suburbano, do Jiquitaia. O mel de mandaçaia de um
produtor do litoral do Paraná adoça a mistura de cachaça, Cynar 70,
limão e ginger ale.
Brumadinho: abelhas são resgatadas para ação de reflorestamento na região
Mariana Costa
Abelhas guaraipó, nativas da região atingida pelo rompimento da barragem B1, em Brumadinho (foto: Divulgação/Vale)
As abelhas nativas sem ferrão existentes nas áreas atingidas pelo rompimento da barragem B1, em Brumadinho, estão sendo catalogadas e monitoradas por uma equipe de biólogos da Vale.
A
ação teve início ainda em 2019 e faz parte de um acordo assinado com a
Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Brumadinho para preservação das
espécies que vão auxiliar na polinização e, consequentemente, no reflorestamento da região.
No município, as abelhas são protegidas por lei (Lei municipal, nº 2.355, de 22 de setembro de 2017).
Até este mês de abril, 328 colmeias nativas
foram catalogadas e algumas delas tiveram que ser resgatadas e
realocadas para outras áreas florestais ou para o meliponário (coleção
de colmeias) criado pela empresa na cidade.
A polinização realizada por essa espécie tem sua importância reconhecida, tanto no âmbito agrícola, como para a manutenção da biodiversidade, pela Convenção da Diversidade Biológica (CDB).
Esta
convenção está diretamente ligada à Organização das Nações Unidas,
sendo um dos mais importantes instrumentos internacionais relacionados
ao meio ambiente.
Colmeia da abelha jataí na região de Brumadinho (foto: Divulgação/Vale )
Das cerca de 200 espécies de abelhas sem ferrão existentes no Brasil, mais de 25 já foram identificadas em Brumadinho.
As mais conhecidas, como a jataí, mandaçaia, manduri, mandaguari e a
uruçú, constroem geralmente seus ninhos em cavidades existentes em
troncos de árvores.
Outras utilizam formigueiros e cupinzeiros
abandonados ou constroem ninhos aéreos presos a galhos ou paredes. As
colônias de abelhas nativas brasileiras variam entre 500 a 4 mil
indivíduos, de acordo com a espécie.
*Estagiária sob supervisão do editor Álvaro Duarte